QUINO

QUINO
TODA MAFALDA

sábado, 6 de novembro de 2010

Aula de Sociologia

 por Pedro Russo...




"Gabriel o Pensador - Ãh
Eu não sei quem inventou essa mania e nem sei o que seria esse "ãh".
Eu só sei que eu acordei no outro dia e só ouvia todo mundo dizer ãh.
Eu nem sabia que existia essa palavra ou esse nome ou o que quer que seja ãh.
E de repente vi que toda a minha gente enfiou na sua mente o tal do ãh.
Tranqüilamente fui lá na padaria e falei bom dia, responderam ãh.
Comprei um pão e fui ver televisão, só que na programação só tinha ãh.
Fui pro estádio assistir a um futebol e a torcida só gritava: "ãh! ãh!"
Liguei o rádio pra ouvir os comentários e era "ãh-ãh-ãh-ãh-ãh-ãh-ãh".
Cheguei em casa, o meu amigo me ligou, eu disse alô, ele disse ãh.
Ele me falou duma festinha recheada de gatinha, eu disse ah... hmm... Ãh!!
Cheguei na festa e realmente tava bom, mas o som...ãh ãh
Uma garota me deu mole e começou o bate-papo: "ah? ãh! ãh..."
Fomos lá pra casa e aí ãh, perguntei se ela ãh, ela veio e "ãh"...

Por isso eu digo "ãh!"
Everybody say "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh!", eu também quero falar... ãh...
Por isso eu digo "ãh!"
Vem dizer comigo: "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh", então eu digo ãh... ah, sei lá!

Fui pra escola e esqueci a minha cola, e na prova eu respondia tudo ãh.
O professor me falou alguma coisa que eu não entendi porque não era ãh.
Voltei pra casa meio ãh, e o guarda me pegou com uma ãh, e falou que eu ia ãh.
"Peraí, seu guarda, eu posso explicar"
- "Então explica!"
- "É que... ãh..."
E o meu pai ficou sabendo e já veio me dizendo que eu era muito ãh.
Eu disse "pai, ãh, pai, mas pai, ãh, pai..."
- "Cê tá me respondendo, meu filho?!"
- "Ô, pai, ãh!!"
Meu pai nunca me escuta e pra mostrar quem é que manda ainda faz aquela cara meio ãh.
Eu resolvi fazer uma banda que é pra ver se alguém me escuta! O nome dela é Ãh.
O nosso som é uma mistura de ãh com ãh, e a nossa postura é ãh!
Acho que vai ser o maior sucesso, mas não sei se vai ser bom fazer sucesso, que o sucesso é meio ãh.
Hoje eu já falei com um, ãh, jornalista, que na hora da entrevista perguntou:
- "Porque 'Ãh'?"
- Ah... Por que 'Ãh'? Ah, Ãh por que ãh!
Se você não entendeu, sinto muito mas ãh...

Refrão

Tava tudo indo muito bem, porque eu só falava ãh, escutava ãh e pensava ãh.
Tudo como manda o figurino, as meninas e os meninos, todo mundo repetindo ãh.
Parecia muita hipocrisia, porque todo mundo repetia e nem sabia o que era "ãh".
Tão fazendo a gente de robô, só não sei quem programou.
Quando eu percebi eu disse: "ô-ôu!"
Foi aí que todo mundo olhou pra mim, só pra ver o quê que eu ia dizer.
Foi aquele olhar assim bem ãh, de quem quer ouvir um "ãh", só que aí em vez de "ãh" eu disse "Be"!
Depois dessa resposta muita gente deu as costas, e até quem me adorava hoje fala que não gosta.
Eu até tentei compreender o "ãh", mas quando eu falei do "Be" ninguém tentou me entender.
É porque pra eles é o "ãh", tem que ser o "ãh", pelo jeito vai ser ãh a vida toda.
Se você quiser saber, depois do B já vem o C, e tem o D e tem o E e com o F eu digo foi.

Por isso eu digo "ãh!"
Everybody say "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh!", eu também quero falar "Be"!
Por isso eu digo "ãh!"
Vem dizer comigo: "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh", então eu digo foi...
Por isso eu digo "ãh!"
Everybody say "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh!", eu também quero falar "Be"!
Por isso eu digo "ãh!"
Vem dizer comigo: "ãh!"
Se todo mundo fala "ãh", então eu digo Foda-se.
"

Música: Gabriel, o Pensador – Ãh
Quadrinhos: Quino

Tema da aula: Senso comum. Mecanização da vida. Ideologia. Perda da criatividade.

Esta aula foi utilizada em salas do Ensino Médio na matéria de Sociologia. Tive a idéia porque, ao substituir a professora, vi que ela queria passar para os educandos textos com Durkheim, Comte, Kant... Sem antes explicar a essência da Sociologia. Que nada mais é que perceber o mundo à sua volta, discuti-lo, entender sua dinâmica, as razões pelas quais se fundou desta maneira. E mais, enxergar-se neste mundo enquanto agente histórico.
A música, de forma metafórica, faz uma crítica à sociedade em que vivemos. Onde as pessoas imitam o que os outros dizem, não sabem o que estão falando e por isso não conseguem se expressar. Os estudantes se identificam bastante com isso, pois é contada a história de um jovem que se sente reprimido, mas se encontra nesse mundo “programado” e acaba por fim apenas reproduzindo o que lhe é depositado por amigos, pela mídia, ou seja, pela sociedade em geral.
Além disso, existe uma pressão social para que as pessoas sejam iguais e tenham atitudes semelhantes. A intenção era fazer com que eles questionassem a própria vida e percebessem que a canção tem muito a ver com o cotidiano de cada um. Perceber que é necessário criticar o que lhes é imposto e alocado como verdade.
Os quadrinhos do Quino, nesse momento, servem para aprofundar a discussão, pois eles saem do âmbito apenas juvenil e miram todo o conjunto social. De todos os lados, não apenas na escola, mas também na vida familiar e no trabalho somos pressionados a fazer o que é dito como “certo”. Apenas nesse momento cito Durkheim e sua teoria da consciência coletiva e da Socialização, que diz que o homem apenas se tornou Humano quando começou a viver em sociedade e criar costumes e maneiras de se portar.
É nesse momento que faz o eixo que liga toda a aula. Todos, vivemos em sociedade, e por isso somos um grupo racional. Mas é essa mesma sociedade que muitas vezes nos restringe a pensamentos iguais, além disso, é ela que muitas vezes faz com que duvidemos de nós mesmos quando temos um pensamento diferente, original. E é essa a mecanização ocorrida nas escolas, que são como uma linha de produção alienante ao trabalhador. No nosso caso o estudante é o trabalhador que não sabe a importância do local que compõe, a não ser a de garantir um papel que diga que ele está formado e assim preparado para ser inserido à sociedade.
 

Um comentário:

Lorena disse...

Pra quê dizer: "Bom dia" quando se pode grunhir, não é mesmo?

Os Queridinhos!