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quinta-feira, 17 de março de 2011

Nacionalismo - Dez na área, um na banheira e ninguém no gol (vários autores)

por Caio Ferraro


   Descobrimos essa obra devido à uma polêmica, que rapidamente se redesenhou em um massacre. Estes quadrinhos foram selecionados e distribuídos por um orgão do governo do Estado à crianças de 3ª série do Fundamental. Ao constatar a presença de mulheres nuas e palavrões em suas páginas os pais e as escolas se revoltaram, levando o governo a recolher todas as edições. De qualidade indiscutível esta obra foi vítima da falta de preparo dos responsáveis por selecionar os quadrinhos a serem distribuídos nas escolas públicas. Para desviar o foco iniciou-se um verdadeiro processo de inquisição, condenando a obra e seus autores.

Reportagem do Globo : uma visão tendenciosa, prioriozando imagens fora do contexto e comparando com erros grotescos em apostilas do governo.


Resposta da editora Via Lettera : a defesa da editora, que solicita em letras garrafais que sempre que os meios de comunicação se pronunciarem acerca de determinado assunto consultem especialistas na área.



Compramos o livro para utilizá-lo em nossa proposta em sala de aula. As páginas selecionadas foram utilizadas na primeira aula do bloco Nacionalidade: uma construção histórica.











(trabalhamos com ampliações em A3 colorido, primeiramente exposto com as músicas e na sequência circulando pela sala para que todos pudessem observar de perto.)


Quais destas canções vocês conhecem?

Nossa pergunta inicial demonstrava de imediato que mesmo depois de 4 décadas ao menos 1 das canções era familiar aos alunos. Nossa função em sala era elucidar a razão porque apenas uma das três canções de vitória era completamente ignorada por eles (e por nós professores que demoramos a encontrar uma versão gravada).

Misturando a história do Brasil nas Copas do Mundo e a história política do país, tentamos mostrar aos educandos como a política se apropria do esporte nos momentos oportunos, movimentos para estabelecer uma unidade nacional em prol de interesses que nem sempre (na maioria das vezes) interessam ao povo.

1ª página : COPA de 1958
Depois do fracasso na Copa de 1950 o Brasil não foi bem na Copa de 1954, o que diminui as expectativas da população para a Copa da Suécia em 1958. O sentimento de "cachorro vira-latas" definido por Nelson Rodrigues se apossa da nação em consequência do suicídio do presidente Getúlio Vargas, o que começa a se modificar com o plano de desenvolvimento do presidente Juscelino Kubitschek. Prometendo colocar o país nos rumos do progresso com o slogan "50 anos em 5" JK endivida o país com seguidos empréstimos internacionais e investe pesado para propagandear os feitos do governo. Nesse contexto a seleção brasileira conquista a inédita Copa do Mundo, um cenário perfeito para o governo demonstrar à população que estamos a caminho do topo, que somos um dos grandes! "Com brasileiro não há quem possa!"
2ª página : COPA de 1962
A expectativa para a Copa do Chile era imensa, afinal além de sermos os atuais campeões, tínhamos o rei do futebol e o rei dos dribles! Enquanto o brasileiro se distraía com a Copa do Mundo a situação política do Brasil se agrava. Depois da renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961, o país de torna um barril de pólvora, com os militares mobilizando todas as forças políticas para evitar que João Goulart possa exercer o cargo de presidente. Quando o bicampeonato é conquistado não havia condições políticas de exacerbar o nacionalismo da conquista e a música escolhida como símbolo demonstra essa diferença: Diferente das demais seus versos fazem referência principalmente aos jogadores e não ao povo brasileiro como um todo. Como não fora usada para propaganda essa canção caiu no esquecimento.

3ª página : COPA de 1970
O delicado momento político do país em 1962 contrasta com a força do general Emílio Garrastazu Médici, presidente em exercício em 1970. Após 6 anos de ditadura militar no país o AI-5 demonstrava que não havia nenhuma intenção a curto prazo dos militares deixarem o poder. O ato institucional nº5 suprimia as liberdades civis e dava amplos poderes ao presidente, o que, na prática, resultou em violenta repressão política. A censura aos meios de comunicação limitavam o alcance dos acontecimentos aos mais politizados, mantendo a maioria da população na ignorância. O tricampeonato veio em excelente momento, a taça Jules Rimet ficaria em posse definitiva do Brasil, nos vangloriávamos de ser a melhor seleção do planeta, pela primeira vez a Copa do Mundo foi transmitida em cores e tudo isso serviu aos propósitos do governo militar. A música escolhida como tema exaltava a união da população, demonstrando como somos fortes unidos em torno de um ideal. "90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Vamos todos juntos pra frente Brasil do meu coração! De repente é aquela corrente pra frente, parece até que o Brasil deu as mãos..."



Comedia MTV - Corrompe Brasil


"Ele manda no ministério, na seleção mando EU!"
João Saldanha, então técnico da seleção ao se recusar a escalar jogadores indicados pelo presidente Médici. A três meses do início da Copa de 1970 ele foi substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo.





Com prefácio de Tostão e introdução de José Roberto Torero, Dez na área, um na banheira e ninguém no gol agrega os talentos de Samuel Casal, Spacca, Lelis, Allan Sieber, Custódio, Maringoni, Caco Galhardo, Leonardo, Fábio Zimbres, Osvaldo Pavanelli, Emílio Damiani, Fábio Moon e Gabriel Bá.

2 comentários:

alexandre disse...

olá. legal o comentário, mas vocês poderiam também escanear a revista, deixar disposição na internet.

Caloi disse...

Eu adoraria, entretanto em nosso país essa prática é considerada crime, o que limita a ação, já que não posso arriscar todo o conteúdo do site por esse motivo.

Os Queridinhos!