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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

De onde vem meu preconceito? - Introdução à Lei nº 10.639 - 1ª Parte

por Caio Ferraro


LEI Nº10.639, DE 9 DE JANEIRO DE 2003.


Art. 26-A: Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.







           
A lei nº 10.639 (leia a lei na íntegra aqui) acaba de completar 10 anos, representando uma vitória gigantesca do movimento negro nacional, talvez maior do que poderíamos imaginar na época de sua validação. Diversos cursos são promovidos todos os anos em diferentes instâncias visando a formação do educador em História da África e cultura negra, desde seminários organizados por órgãos governamentais até a formação universitária, voltados especificamente para a atuação em sala de aula. Mais importante que a oferta é a procura, observando que as inscrições são extremamente concorridas (ao menos na cidade de São Paulo). O Museu Afro-Brasileiro foi criado justamente um ano após a lei,  localizado no Parque do Ibirapuera está sempre movimentado, atuando ainda como preconizador de cursos de formação docente, lembrando que as visitas agendadas para grupos escolares requerem paciência e insistência. (Para acessar a página do MUSEU AFRO-BRASILEIRO clique aqui)
No entanto toda ação leva à uma reação, sendo que neste caso há a resistência de significativa parcela conservadora da sociedade que questiona as políticas afirmativas. Lei, museu, cotas, dia da consciência negra... Será que são realmente necessárias tantas políticas afirmativas para que o negro fortaleça sua identidade étnica-cultural e ocupe o lugar devido na História nacional? Este post tem o intuito de apontar algumas origens dos nossos preconceitos estereotipados, de forma que o educador possa utilizar em sala de aula, iniciando com Histórias em Quadrinhos e em um segundo momento com músicas.
SUPERMAN TERRA UM - J. Michael Straczynski / Shane Davis

Esta página foi extraída da edição "Superman: Terra um",  em que o autor J. Michael Straczynski reimagina a origem do "maior super-herói de todos os  tempos", o Superman. O que poderia ser um simples deslize em meio à uma obra excelente, na verdade representa um erro grotesco que é reproduzido em diversos veículos de informação e no ensino nacional. Não é de hoje que a presença estadunidense em nossa cultura é robusta, influenciando diretamente o imaginário coletivo, sobretudo com a produção cinematográfica, em que filmes catástrofe alcançam públicos incríveis. Nestes filmes, tal qual nesta página, é comum que apresentem os impactos ao redor do mundo, escolhendo países específicos que simbolizam "os quatro cantos", sempre apresentando lugares icônicos destas nações. No segundo quadro desta página temos as pirâmides do Egito e no quinto quadro a "África", definida por dromedários, o que pode nos levar a crer que o monumento mais importante do continente africano é o Deserto do Saara. 
Presença do Camelo - Predominante no Norte da África

Historicamente o Egito é dissociado da África, pois é indicado como um dos berços da civilização ocidental, sobretudo do sistema numérico utilizado em nossa sociedade, enquanto que as pirâmides são uma das grandes maravilhas da humanidade. Então nesta página encontramos dois absurdos reproduzidos em nosso ambiente escolar:
1- A separação do Egito em relação à África, por se tratar de uma cultura milenar com inegáveis influências no Ocidente, o que afetaria o "fardo do homem branco", a visão propagada pelos Estados imperialistas de que a África é um continente atrasado e cabe às nações evoluídas auxiliarem no processo civilizatório.
2- A África concebida como uma unidade, sem divisão de países, culturas, etnias, religiões, fauna e flora, o que contribui com a perspectiva de atraso em relação ao Ocidente. Raros são os casos em que um país africano é retratado em seu aspecto urbano, quebrando o padrão primitivo como são expostos seus habitantes. 

Para quebrar esse padrão selecionei duas páginas da História em Quadrinhos "O Quilombo Orum Aiê", de André Diniz, obra fantástica que trata da Revolta dos Malês e da fuga dos protagonistas para um quilombo, desmistificando importantes esterótipos no decorrer da narrativa.   
O Quilombo Orum Aiê - a desmistificação da unidade cultural africana e do escravo passivo



Nesta fantástica História em Quadrinhos o leitor vai acompanhar a vida dos escravos negros na cidade de Salvador, em 1835, para entender as motivações e interesses de um episódio marcante da história brasileira: a Revolta dos Malês, considerado o maior levante escravo da Bahia. O autor percorre as ruas da cidade com a ajuda de seu protagonista, o moleque Capivara, que aos poucos vai compreendendo que a situação escrava não torna todos os negros iguais. Escravos rebeldes, escravos de ganho, libertos e toda uma gama de relações sociais que podem ser trabalhadas em sala de aula estão presentes na obra. Sobretudo o aspecto religioso da revolta, que possibilita enveredarmos na cultura islâmica dos Malês e suas origens regionais. As discussões das personagens sobre a mística do quilombo para o qual fogem evidencia a intenção de Diniz de apresentar uma concepção mais realista a um elemento pouco explorado em nosso ensino.(muito mais sobre o trabalho do autor você confere clicando aqui)

A página a seguir foi retirada de "O livro da Caveira" e tem como protagonista o Capitão América. Vamos analisar a tradução de um quadro específico. 

ORIGINAL: Caught one of their HOODOO PRIESTS tryin' to sneak out of the catacombs on my way in.

TRADUÇÃO: Peguei um dos SACERDOTES MACUMBEIROS deles tentando se esgueirar das catacumbas enquanto eu entrava. 



Caso o tradutor optasse por uma tradução literal de "HOODOO" a frase seria perfeitamente entendida: sacerdotes VODUS. Então por qual razão ele preferiu o termo macumbeiros? Acontece que "hoodoo" é um termo comumente utilizado para referência pejorativa às religiões de matrizes africanas nos EUA, desta maneira o tradutor optou por "macumbeiros", o termo nacional para inferiorizar a cultura religiosa negra. Muito embora a palavra "vodu" tenha relação direta (ou indireta depende da fonte consultada) com as religiões afro-brasileiras (leia-se o Candomblé Jeje), a opção por "macumbeiros" aponta para a intencionalidade de reproduzir o preconceito explícito no original. 


Não cabe aqui nenhum tipo de julgamento ao tradutor, apenas expor o questionamento que uma palavra pode gerar em sala de aula. A tradução é um campo complexo e delicado, subaproveitado no ensino básico, mas essencial para entendermos "de onde vem meu preconceito".   


As páginas seguintes são parte da obra de Alex Mir, Caio Majado, Omar Viñole: Orixás - do Orum ao Ayê.
Orixás - Do Orum ao Ayê - conta uma das versões da criação dos Orixás e do Mundo.


"Orixás" remete à uma entre inúmeras histórias da origem do Mundo, desde o surgimento das divindades africanas (o termo divindade não é aceito por todas as vertentes da cultura afro-brasileira) até a separação entre o Ayê (o mundo físico) e o Orum (a morada dos Orixás). A obra é excelente para trabalhar a humanização dos orixás, em contraponto à perspectiva dicotômica cristã, majoritária em nossa sociedade, que divide o mundo entre o bem e o mal. 

"Se você não tomar cuidado, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo." MALCOLM X

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