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sábado, 2 de outubro de 2010

Poder Supremo - autores: Marc Guggnheim e Paul Gulacy

Por Caio Ferraro
 
Antes de realizarmos a última aula da questão do negro, assistimos Hotel Ruanda. Duas considerações sobre a utilização do filme: minha primeira opção era utilizar Tiros em Ruanda, uma visão menos hollywoodiana, mas em contrapartida um nível de violência maior. Também cogitei exibir o documentário Pátria Proibida, só que não havia tempo hábil para editar e era inviável passar o vídeo inteiro para alunos de 14 anos, por ser demasiadamente cansativo para eles.

Antes de distribuir os quadrinhos, discuti com eles sobre o filme, reafirmando a colonização européia como principal fator para a situação das nações africanas. As indagações se concentraram na questão Tutsi x Hutu, "quem eram os tutsis?"; "quem eram os hutus?"; "o que eles tinham de diferente?"... Isso os marcou demais.

Então entreguei os trechos da HQ Marvel Max #49, Editora Panini, do título "Poder Supremo" com roteiros de Marc Guggnheim e desenhos de Paul Gulacy.





Marc utilizou uma luta entre as principais personagens do título Poder Supremo para denunciar a situação de Darfur, no Sudão. De maneira muito interessante ele questiona as políticas intervencionistas e suas motivações, assistencialismo, contrastes culturais e genocídio. Por essa razão a escolhi para a parte final de 4 aulas sobre a questão do negro, trabalhando a África contemporânea, apresentando os impactos de séculos de exploração e colonização, além de reafirmar que a velocidade de mudança não está submissa apenas à intervenção externa ou no apoio financeiro.


Como era a última etapa e os alunos já estavam adaptados à linguagem, trabalhei com páginas pesadas e polêmicas, que trariam à memória todos os questionamentos que levantamos durante mais de 1 mês, nas 4 aulas anteriores. Foram 12 páginas que circularam entre eles. Acima selecionei apenas 4, justamente as mais abordadas durante nosso debate. 

I - O alter ego do Falcão Noturno é repreendido por uma funcionária, que lhe expõe a inutilidade de doar milhões de dólares à Darfur. O assistensialismo financeiro é duramente criticado com excelentes argumentos. O Conselho de Segurança da ONU é diretamente criticado (coisa rara nas principais editoras do mercado americano), sendo acusado de conflito de interesses. OBS: importante ressaltar que na busca incessante por um inimigo comum, desde que a invasão no Iraque não vingou, os quadrinhos estadunidenses refletem uma postura anti CHINA, como na página em questão.


II - A limpeza étnica é algo que lhes chamou muita atenção durante o filme Hotel Ruanda e veio à tona com essa sequência (havia mais uma página). A mãe implora pela vida do filho, enquanto um miliciano explica seus motivos para matá-lo. O genocídio lhes parece algo muito distante da nossa realidade e por essa razão os choca tanto. Além desse trecho havia outro, que antecedia um estupro e também chamou muita atenção. Nesse momento me arrependi de não ter trabalhado ao menos os depoimentos do "Pátria Proibida", onde os "meninos perdidos do Sudão" contavam os crimes de genocídio que presenciaram.

III - O intervencionismo internacional é duramente criticado nessa  e em outra sequência trabalhada em sala. Os argumentos da HQ nos deixam com uma dúvida no ar: Será que não há solução imediata? Os alunos entenderam que não, como a História nos mostra, não há mudanças mágicas em nenhuma sociedade, pois até mesmoa s Revoluções estão inseridas em um contexto maior. A presença de agentes externos pode modificar a configuração dessa sociedade somente enquanto exercer a força militar, o que não altera em nada o sistema de poder.

IV - Apesar de polemizar as intenções internacionais sobre o conflito, o roteirista não deixa de postar um dos maiores alicerces da colonização: a missão civilizadora.  O autor simplesmente condena a cultura do país e o herói resolve o problema assassinando o militar. Longe de mim defender o assassinato de uma menina por ter sido estuprada, no entanto, criticar da maneira como foi feita e solucionar a questão com um homicídio, sem chance de julgamento, seria no mínimo incoerente. Essa passagem gerou revolta nos alunos, o que nos levou à esse debate acerca  da cultura ocidental como "certa", em um maniqueísmo mundialmente imposto.

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